Minhas irmãs, avó e amigas e as coisas que não tem palavras | Diário de bordo-Vale do Capão-11.03.21

Atualizado: Mar 16


No meu celular tem mais fotos do que vejo do que de mim. Porque gosto de tentar guardar um pouco das imensidões que meus olhos encontram. E de pensar que depois, talvez, exista um final de tarde sentada no chão da sala em que eu vou compartilhar com alguém aquilo tudo que vi. E que eu vou conseguir transmitir quase toda a grandeza que é estar naquele momento. As palavras. Ah! As palavras são minhas irmãs, minha mãe, minha avó, minhas melhores amigas. Sabe aquele recurso que tu confia muito e aciona quando sente que precisa ver melhor o caminho? Ou aquele colo quente e seguro que te coloca num ninho onde você conhece do que são feitas as paredes e por isso se sente tranquilo? É isso que são as palavras pra mim.

Outro dia, tirei um domingo pra ficar sozinha nessa casa que moro agora no meio do mato e pela primeira vez acendi uma fogueira sozinha. Sentei ao lado dela com algumas cobertas e esperei anoitecer. Tive a sensação de que tinham palavras e mais palavras boiando ao meu redor, contemplando esse momento comigo.

Em outro domingo fazia uma trilha longa subindo a montanha, depois de passar o fim de semana brotando todas as sementes que pediam calma e silêncio dentro de mim, na beira de um rio e mergulhando profundo em um amor. Foi uma das trilhas mais difíceis que já fiz porque minha mente relutava em voltar. Cada passo subindo parecia uma braçada forçada de volta à beira, quando eu queria ficar submersa. E pedi pausa várias vezes para respirar. E me convencer de que só viver feito lenda que vira bicho de água chega hora que afoga. Tudo isso eu consigo entender agora, que coloco em palavras. Mas na hora que sinto... É tudo feito aquelas bolas de feno rolando no deserto. Só que de tamanho grande, que aparentemente parece que é feita de uma coisa só mas também feita do mesmo mistério que a faz surgir no horizonte e ir embora: coisa que não tem palavra.


E nas coisas que eu não vejo palavra o primeiro movimento que me causa é susto, coração dispara, "o que tá acontecendo?". Isso para o lado bom, euforia e diversão de pairar no infinito e o lado complicado, de sentir que então é tudo ruído.


Engraçado que é escrevendo que me sento comigo e me vejo. E por isso talvez nesse momento tenho tanto mais fotos do mundo de fora guardadas. Através das palavras, é que tenho criado registros e formas de organizar e expor o mundo de dentro. E hoje, especialmente hoje, lembrar de como elas, minhas amigas e irmãs, me ajudam a ver e sentar nesse ninho indefinido trás a sensação de que vai ficar tudo bem.

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